sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Não te amo

[João de Almeida Garret]


Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.

   E eu n'alma - tenho a calma,
   A calma - do jazigo.
   Ai! não te amo, não.
 

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
   E a vida - nem sentida
   A trago eu já comigo.
   Ai, não te amo, não!
 

Ai! não te amo, não; e só te quero
   De um querer bruto e fero
   Que o sangue me devora,
   Não chega ao coração.

 
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
   Quem ama a aziaga estrela
   Que lhe luz na má hora
   Da sua perdição?
 

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
   De mau feitiço azado
   Este indigno furor.
   Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
   Que de mim tenho espanto,
   De ti medo e terror...
   Mas amar!... não te amo, não.
 

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Benditas

[Composição: Zélia Duncan / Mart´nalia]

Benditas as coisas que não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Nos amores que nunca encontrei
Benditas as coisas que não sejam
Benditas

A vida é curta mas enquanto durar
Posso durante um minuto ou mais
Te beijar pra sempre
O amor não mente,
não mente jamais
E desconhece
no relógio o velho futuro
O tempo escorre num piscar de olhos
E dura muito além
dos nossos sonhos mais puros

Bom é não saber
O quanto a vida dura
Ou se estarei aqui
na primavera futura
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa / nenhuma

Benditas as coisas que não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Nos amores que nunca encontrei
Benditas as coisas que não sejam
Benditas

domingo, 7 de outubro de 2007

O Convite

[Oriah Moutain Dreamer]

Não me interessa como você ganha a vida. Eu quero saber aquilo pelo qual você anseia, saber se você ousa sonhar e ir ao encontro dos latejantes anseios do coração.

Não me interessa sua idade. Eu quero saber se você se arriscará a parecer um louco pelo amor, por seus sonhos, pela ventura de estar vivo.

Não me interessa que planetas estão em quadratura com sua lua. Eu quero saber se você tocou o centro de sua própria tristeza, se as traições da vida conseguiram abrir você ou se fez ainda mais escondido e fechado com medo de sentir mais dor! Eu quero saber se você pode se sentar com a dor, minha ou sua, sem se esforçar para escondê-la, diminuí-la ou consertá-la. Eu quero saber se você pode estar com a alegria, minha ou sua; se você pode dançar uma dança selvagem e deixar o êxtase preencher você desde a ponta dos pés e das mãos sem ficar nos alertando para sermos cuidadosos, realistas ou para nos lembrarmos das limitações de estar sendo humanos.

Não me interessa se a história que você está me contando é verdadeira. Eu quero saber se você pode desapontar alguém para ser verdadeiro consigo mesmo; se você agüenta a acusação de traição sem trair sua alma. Eu quero saber se você pode ser fiel e, portanto, confiável. Eu quero saber se você pode ver beleza mesmo se não estiver bonito todos os dias, e se você pode ancorar sua vida na beira do lago e gritar para o prateado da lua cheia.

Não me interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro você tem. Eu quero saber se você pode acordar depois de uma noite de mágoa e desespero, exausto e ferido até os ossos, e fazer o que precisa ser feito para as crianças.

Não me interessa onde, o quê ou com quem você estudou. Eu quero saber o que te sustenta por dentro quando tudo o mais queda desfeito. Eu quero saber se você pode estar sozinho consigo mesmo e se você realmente aprecia sua companhia nos momentos de vazio.

[Na primavera de 1994 fui a uma festa e realmente me empenhei em ser sociável. Perguntei e respondi às questões de sempre: O que você faz? Como conheceu o anfitrião? Onde você estuda? Depois, voltei para casa como familiar sentimento de vazio, um buraco dentro de mim. Então me sentei e fiz o que muitas vezes faço para conectar com o que está me acontecendo – escrevi. Escrevi sobre as conversas na festa, o que realmente não me interessava e o que eu realmente queria saber sobre os outros, sobre mim mesma.Fui ao centro da dor em busca de algo mais entre eu e o mundo, e o poema-ensaio “O Convite” escorreu para o papel. Mandei o texto para algumas pessoas e de repente ele ganhou vida própria, começou a ser espalhado através de e-mails. Um agente literário sugeriu que o transformasse em um livro.Retirei-me para um chalé e escrevi sobre o que eu precisava lembrar, o que eu precisava ouvir de novo e sempre: que a vida é cheia de beleza e dor; que o mundo partirá seu coração e o curará muitas e muitas vezes, se você deixar. E que deixar que ele faça ambas as coisas é a única maneira de viver plenamente; que não estamos sozinhos, mas profundamente conectados com aquilo que cria e sustenta toda a vida.]

sábado, 6 de outubro de 2007

A sombra

Eu estava como alguém que aguarda, em constante expectativa, por um olhar, por uma palavra, por uma fração de segundo, que desse sentido a esse esquete...

então a fração de segundo tornou-se um infinito...

de possibilidades

de incertezas

de sentimentos

de insights

de turbilhões

de consciência

de inconsciência

de sombras

de luz...

luz azul!


E agora...

eu estou um mísero pontinho de energia condensada
largada num todo

incomensurável

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre

[Rubem Alves]

Assim acontece com a gente.As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo.O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, MEDO, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo!

Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também. Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM!

E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado. Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura.

No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém.
Eu sou pipoca, e você?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Despedida

Quando não há mais nada a ser feito, a gente sente que poderia ter feito muito.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Telefone sem fio



Não, não estou falando de celular... “bluetooth”, “wireless”... nada disso.Estou falando da pífia comunicação que se estabelece a cada dia entre as pessoas, apesar de todos os aparatos tecnológicos de que dispomos. De que adianta termos tantos recursos, se o nosso verbo ainda é peneirado por nossos maiores algozes?A ponte que deveria ligar o verbo ao coração é uma das grandes obras que ainda não foi terminada.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O Vilarejo

Neste vilarejo as pessoas vivem em paz. É um vilarejo de casas, o céu está sempre aberto e radiante, faça chuva ou faça sol, transportando o ar puro e fluido da atmosfera. Os jardins das casas se complementam harmoniosamente, criando uma paisagem bucólica e natural no entorno mais próximo, que é abraçado por bosques em todo o seu contorno. As pessoas que vivem lá sentem paz profunda, são bem humoradas, brincam como crianças e respeitam a todos, como é próprio da maturidade que se desenvolveu com amor. Todo o desenvolvimento do vilarejo é auto-sustentável. Os habitantes plantam seus próprios alimentos, cuidam de suas casas, de suas famílias e do ambiente natural com carinho; trabalham na realização das coisas que lhes trazem gratificação, sem que precisem para isso entrar em concorrência com seus vizinhos, porque cada um trabalha de acordo com sua individualidade e oferece um trabalho único. O bem individual, amparado no auto-respeito e na generosidade, na igualdade, na fraternidade pelo respeito do próximo, gera naturalmente um bem comum. As pessoas nesse lugar não cultivam expectativas e, por isso, não sofrem decepções. Essas pessoas são conscientes de que compartilham um tempo e um lugar, e dão o que há de melhor em si aos outros e à vida. Elas estão focadas no bem.

A pergunta é: sabendo da exitência desse lugar, você abriria mão de tudo o que tem e vive hoje para se tornar um habitante do vilarejo?